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Tripes na soja: um alerta que se renova a cada safra

A cada ciclo agrícola, o produtor brasileiro de soja se depara com uma realidade incômoda: a recorrência de pragas que, embora conhecidas, seguem roubando produtividade. Entre elas, os tripes (Frankliniella spp. e Thrips spp.) emergem como um problema crescente, cuja gravidade tem sido subestimada em muitas regiões. Longe de ser um mero detalhe sazonal, o ataque desses pequenos insetos sugadores representa uma ameaça silenciosa que, quando não manejada a tempo, pode comprometer significativamente o potencial produtivo da lavoura.

Diferentemente de pragas de maior porte ou de ocorrência mais visível, os tripes atuam de forma discreta. Alimentam-se da seiva das plantas, principalmente em folhas e brotações novas, provocando deformações, prateamento e, em casos severos, a queda prematura de estruturas reprodutivas. O dano direto, no entanto, é apenas parte do problema. Esses insetos são vetores de viroses, como o vírus da necrose da haste da soja, o que agrava ainda mais o impacto sobre a lavoura.

O cenário atual é de alerta. Dados de monitoramento de campo indicam que as populações de tripes têm aumentado em áreas de sucessão soja-milho e em regiões com plantio direto consolidado, onde a palhada oferece abrigo para a sobrevivência da praga entre safras. A ausência de rotação de culturas e o uso intensivo de cultivos hospedeiros, como o algodão e o milho, também contribuem para a perpetuação do ciclo biológico do inseto.

Para o produtor, o maior desafio reside no manejo. O controle químico, quando mal planejado, pode ser ineficaz devido ao comportamento críptico dos tripes, que se abrigam em locais de difícil acesso para a pulverização, como cartuchos e brotações. Além disso, a resistência a inseticidas já é uma realidade em algumas populações, exigindo uma abordagem mais estratégica e integrada.

A recomendação técnica passa pelo monitoramento constante, especialmente nos estádios iniciais da cultura (V3 a R1), quando a planta é mais vulnerável. Amostragens semanais com o uso de pano-de-batida ou bandejas de plástico são ferramentas simples, mas eficazes, para identificar o nível de infestação antes que o dano econômico se concretize. O nível de ação varia conforme a região e o histórico da área, mas, em geral, a presença de um a três tripes por folíolo já justifica a tomada de decisão.

A integração de práticas culturais também é fundamental. A destruição de restos culturais, a adoção de vazio sanitário e o escalonamento de épocas de plantio podem reduzir a pressão inicial da praga. O uso de cultivares com maior tolerância a viroses e a escolha de inseticidas seletivos, que preservem inimigos naturais como percevejos predadores e ácaros benéficos, são medidas que fortalecem o controle biológico e reduzem a necessidade de intervenções químicas repetitivas.

Do ponto de vista de investimento, a gestão de riscos fitossanitários deve ser encarada como parte do custo operacional da safra. Ignorar o alerta dos tripes pode resultar em perdas de 5% a 15% da produtividade, dependendo da intensidade do ataque e das condições climáticas. Em um cenário de margens apertadas, esse percentual faz diferença entre lucro e prejuízo.

Vale destacar que a pesquisa tem avançado. Novos princípios ativos e formulações estão em fase de registro, e estudos sobre feromônios e controle biológico com fungos entomopatogênicos mostram resultados promissores. No entanto, a adoção dessas tecnologias ainda é incipiente no campo, e a conscientização do produtor segue sendo o gargalo.

A história dos tripes na soja não é nova, mas seus capítulos mais recentes trazem um tom de urgência. O que antes era visto como praga secundária, hoje exige atenção primária. Para o agricultor que deseja proteger sua rentabilidade, o recado é claro: monitorar, planejar e agir com base em dados é o único caminho para evitar que o alerta se transforme em prejuízo consolidado.

Enquanto o setor busca soluções de longo prazo, a responsabilidade imediata recai sobre quem está à frente da lavoura. Conhecimento técnico, disciplina no manejo e atualização constante são as ferramentas mais eficazes para reescrever essa história com um final mais produtivo.

Autor/Fonte: Equipe CAMORIM Agro